quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Prólogo

Gustavo tinha apenas cinco anos de idade, não era como as outras crianças. Não sabia, mas sua seriedade e submissão já eram presenças fortes em sua personalidade. ele aceitava tudo o que lhe era imposto sem pestanejar. Tinha aprendido com o olhar sério e tom forte de falar de sua mãe, que obedecer era a melhor escolha. Havia acabado de chegar de São Paulo com sua mãe e irmão mais novo, este tinha apenas um ano a menos. Estavam ainda na rua, próximo a casa de sua avó, que estavam indo visitar quando seu primo, que estava na calçada com outro amiguinho brincado. Eles vão ao seu encontro, mesmo sabendo que eles estavam indo em sua direção. Gustavo se encolhe por trás do poste que fica ao lado da casa de sua avó. Sua mãe e irmão mais novo passam direto e entram na casa enquanto seu primo sorrindo apresenta seu amigo:

- Oi Gustavo, bora brinca?
Sem largar o poste, Gustavo apenas ouve as palavras do primo enquanto olhava para o amigo dele e assente ao questionamento do primo, que continua falando.
- Este é o Aleff, amigo meu, mora ali na outra rua.

Então o Aleff, que era um ano mais velho, apesar da mesma altura e branco igual ao Gustavo, estende a mão enquanto o seu primo, conhecido por "Binho" pelo fato dele ter sido batizado com o nome do tio e ter o sobrenome "Sobrinho" no final afirma que aquele é o Gustavo, seu primo que acabara de chagar  de são Paulo. Aleff sorri, mostrando seus dentes tortos e brancos. Gustavo não deixou de perceber que este seu novo amigo era diferente de todos os poucos que já conhecera. Aleff tinha olhos verdes, com cabelos louros e lisos como os dele, seus lábios eram grossos e rachados pelo sol. Gustavo sorri enquanto aperta quela mão que era calejada, provavelmente de tanto brincar na rua. Coisa que ele não fazia, já que só brincava com seu irmão mais novo e geralmente dentro de casa. Tinha medo de apanhar de sua mãe. Aleff confirma o que o primo tinha dito, quanto a morar na outra rua e o chama para conhecer seus irmãos e outros amigos em sua casa. Ele aceita, o que já estava acostumado a fazer. Aceito a contra gosto, já que desde pequeno, odiava conhecer pessoas. Mesmo assim eles foram.
Na esquina da rua que cruzava a rua de trás da casa de sua avó com a do final da sua, chegam na casa do Aleff.Gustavo encontra uma casa pequena, aparentemente com apenas três vãos, contando com o banheiro e um terreno enorme que envolve a pequena casa por todos os lados. Gustavo simplesmente fica admirado com tanta terra, árvores e espaço para diversão. Sem dúvidas, ele não tinha estas vantagens em São Paulo.
Todos vão para o quintal, lá Gustavo e seu mais novo amigo ficam a sós, pois seu primo entrou na casa para chamar os irmãos do Allef para brincarem. Sozinhos, Aleff se aproxima do Gustavo e pergunta:
- Você sabe o que é gozar?
Gustavo não entende a pergunta e ainda sem ter dito uma palavra, balança a cabeça em negativa. Aleff continua:

- É homem com mulher e homem com homem fazendo coisa feia. Vamos fazer?
Nossa, Gustavo nem imaginava quantas seriam as vezes que ele ouviria aqueles palavras, "Vamos Fazer".

Pela primeira vez Gustavo abre a boca:
- Acho melhor não, não sei como faz isso.
- Tem problema não, também nunca fiz, mas vi uns filmes do meu pai que meu pai vê escondido. é legal, a gente faz e se não gostar, a gente para.
Mais uma vez, seu instinto submisso aflora e ele assente ao pedido do amigo. Eles vão para o fundo do quintal, entre várias arvores baixas e expeças de pitanga, onde tinha um pedaço de armário sem as portas jogado virado para cima. Aleff pede que ele entra e fique de bruços. Aleff deita por cima dele, coloca os braços ao redor se seu corpo e fica com movimentos de vai e vem sobre ele. Gustavo se sente um tanto desconfortável com o peso do seu mais novo amigo sobre ele. Não sabe dizer se está gostando daquilo, apenas deixa que ele faça o que quer até chegar o momento que vai começar a ficar divertido. Momento este que não chegou. Eles se levantam, se olham, Aleff pergunta como foi e ele responde:
- Não sei, foi estranho.
- No começo é assim, depois melhora.
Eles sorriem.
-Vamos fazer de novo de noite? Aleff pergunta animado.
-Tudo bem. Responde Gustavo. 
Ele não via mal nenhum naquilo, não houve dor, ninguém iria saber e ele sabia que seria um motivo para estar a sós com o Aleff de novo. Ninguém nunca tinha o tocado daquela forma antes. Por alguns instantes, estranhamente, se sentiu protegido. Aquela sensação o encorajou a continuar. 

domingo, 10 de novembro de 2013

12 - Violeta - Surpresa e medo.

Com o passar do tempo, as coisas aparentavam estar entrando nos eixos. Vinha me dando bem no trabalho e minhas horas vagas ficaram divididas entre ler romances enquanto o Emerson assistia aula e sair com ele. Aliás, amo ler, mas sair com o Emerson sem dúvida era a melhor parte dos meus dias. Ficamos comendo nos sebosões de beira de esquinas para no começo do mês sairmos para comer em restaurantes caros apenas para saciar nossos desejos de comer algo mais requintado. As vezes achava muito confortável o fato de não ter conhecido ninguém de sua família ou seus amigos. Isso não me incomodava e ele também nem toca no assunto. Nossos programas em geral eram assim, mas de vez em quando íamos ao parque do sabiá, ficávamos em baixo de algumas árvores, deitados em gramas e as vezes trocávamos beijos discretos. Ele ainda não se sentia a vontade em ir lá em casa. Não conseguia esconder dele a estranheza das atitudes do Niel naqueles últimos dias... Daniel simplesmente evitava de falar comigo, vivia de cara amarrada e passava mais tempo fora de casa do que qualquer outra coisa. Achava estranho  ele não ficar mais naquelas salas de bate papo e quando o via fazendo aquilo, geralmente era porque já estava fazendo quando eu chegava. Eu ficava do lado de fora do quarto esperando ele terminar. Percebia as expressões dele. Parecia que fazer aquilo não tinha mais graça. Se tornou mais uma coisa por obrigação do que por prazer. Sem dúvidas a nossa convivência estava abalada e eu simplesmente não sabia o que fazer para mudar aquilo. Era difícil esconder minha felicidade em ter o Emerson como namorado.
Sabia que estava bom demais para ser verdade. Alguma coisa iria acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde. Só não esperava que fosse justamente naquele dia. Num domingo em que nossas folgas bateram e o Emerson não tinha muita coisa para estudar, resolvemos pegar um cinema e depois comer na praça de alimentação do shopping mesmo. Não esperava vê-los ali. Parecia que tinha sido combinado. Estávamos eu e o meu namorado andando em direção a saída do Uberlândia shopping, quando em minha frente surgem o Felipe, Leonardo e para minha surpresa o Niel. Eles estavam sorrindo, demonstrando uma felicidade que me deixou boquiaberto. O Leonardo não parava de tocar o Felipe, já este não tirava as mãos da cintura do Niel, que estava sorrindo e olhando para o Leonardo com um sorriso descarado que só usava em seus vídeos na internet. Eles aparentemente estavam bêbados e o Emerson não achou nem um pouco interessante minha reação. Paralisei com aquela cena. Quando enfim nos viram, cada um teve uma reação diferente. Consegui captar cada uma delas. O Leonardo me olhava com o queixo levantado, demonstrando uma superioridade que não existia, o Felipe me olhou confuso, mas fazendo questão de mostrar que o Niel estava onde, para ele, deveria ser o meu lugar. Já o Niel não conseguia me olhar nos olhos, apenas aceitava as mãos dos outros dois em seu corpo sem coragem para se quer afastá-las. O Emerson estava bufando, sabia quem era o Niel e pelo que percebi, seu ciúme foi notório devido achar que eu estava enciumado pelo Niel. Minhas pernas tremiam e minhas orelhas queimavam. Sem exitar, o Emerson  me apertou o braço e puxou para que passássemos por eles o mais rápido possível. Eles fizeram o mesmo, mas o Leonardo não poderia perder a oportunidade de falar no mesmo instante que estávamos passando uns ao lado dos outros:
- Vamos embora meninos, que para o que iremos fazer daqui a pouco, este lugar está "careta" demais.
Abaixei a cabeça e já no ponto de ônibus vazio o Emerson me olhava com os olhos exalando fogo e disparou a reclamar da situação. Não tive como esconder mais e contei tudo o que aconteceu comigo, o Felipe e Léo. Ele não falava nada, apenas ouvia tudo com a cabeça baixa. Quando terminei, ele estava sentado olhando para o chão, com os braços apoiados nos joelhos. Não falava comigo e não respondia minha perguntas. Resolvi me ajoelhar em sua frente para conseguir ter acesso a seu rosto. Meu coração trincou quando vi que sua boca tremia e em seus olhos escorriam lágrimas. De imediato os que encheram de água foram os meus. Tentei segurar suas mãos, abraçá-lo, mas eles apenas evitava ficar virado para mim e me afastava de seu corpo. Pedia de todas as formas para que ele entendesse que tudo o que fiz, foi antes de conhecê-lo, mas foi em vão. Emerson apenas pediu para ficar só, que precisava pensar. Não tive coragem de entrar no mesmo ônibus que ele quando ouvi de sua boca que  não queria me ver, que quando estivesse preparado me procuraria. Desabei no ponto de ônibus quando o vi embarcar sem olhar para trás enquanto limpava do rosto as lágrimas que insistiam em cair.
Naquela noite o Niel não dormiu em casa, o que já era de se esperar, Mandei mensagens tanto para o ele, quanto para o Emerson. Nenhum dos dois me responderam. Passei a noite quase toda em claro, ouvindo entre as mais melancólicas de Elis e Marrom.
Quando acordei, meus olhos estavam inchados e a moleza tomava conta de meu corpo, não queria ir trabalhar. Preferia ficar em casa deitado e me torturando olhando para o telefone, na esperança de receber ao menos uma mensagem do Emerson. Tinha certeza que ele me evitaria no trabalho, que arranjaria alguma forma de não passar pelo corredor onde geralmente dávamos nossos tchauzinhos diários. Fui trabalhar e fiquei atendendo os clientes sem o menor sorriso na voz. As horas não passavam e até atenção fui chamado pelo Olávio, que apenas me olhava com aquele olhar de que sabia muito bem o que estava acontecendo comigo. Meu mundo parou e tive sorte de não estar em ligação quando o vi passar. Ele estava com uma colega de trabalho, evitava olhar para o meu lado do corredor e suas olheiras eram tão notórias quando as minhas. Nossos olhares se cruzaram quando de relance, olhou em minha direção. Ele apenas sorriu e abaixou o olhar tristonho. De repente, a sensação estranha de estar perdendo o meu mundo surge.
O ápice eram seus sorrisos, que para mim, não era mais o mesmo,era menos espontâneos e menos meu. Então me olhou novamente e sem mudar e expressão moveu os lábios lentamente para que eu pudesse entender o 'Eu te amo' que dizia. Abaixou novamente a cabeça e sumiu com sua amiga de meu campo de visão.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

11 - Na cor do amor.

Alguns dias se passaram e minha felicidade estava visível em meu sorriso constante. Me encontrava com o Emerson todos os dias após nosso expediente e sempre dávamos tchau felizes um para o outro quando nos víamos do outro lado do vidro. O acompanhava até sua faculdade, que enquanto a aula não começava, ficávamos conversando abraçados numa arvore e nos beijando. Estava gostando daquele ritual. Ter alguém que se importava  comigo e fazia questão de me ver todos os dias estava mudando meu pensar com relação a relacionamento. Aquela rotina, agregada a forma como o Emerson me tratava, seu sorriso um tanto ingênuo e o rubor das maçãs de seu rosto quando tentava me agradar de alguma forma, estava fazendo com que meu encanto por ele se transformasse em algo forte, algo que eu não sabia se estava preparado para enfrentar. De qualquer forma estava com medo,
medo do que ele acharia se soubesse que as vezes transava com meu colega de quarto, medo de ele descobrir sobre minha história inacabada com o Felipe. Sei que faz dias desde aquela mensagem estranha e que nunca mais deu sinal de vida. Sei que mais cedo ou mais tarde terei que enfrentar esta situação, mas não quero perder esta relação tão pura que estou vivendo. Minha cabeça estava cheia e sem conseguir pensar em outra coisa me levantei do meu colchão, peguei uma calça e fui para o banheiro. Quando terminei de tomar banho e entrei no quarto apenas para pegar minha carteira, o Niel me perguntou sem levantar os olhos dos tantos livros sobre sua cama, se eu iria sair. Apressado apenas respondi:
- Vou encontrar meu futuro namorado.
O Daniel me olhou pelo canto dos olhos e deu um meio sorriso. Percebi que ele tentou demonstrar indiferença, mas o fato de morar sob o mesmo teto que ele, me deu uma certa autonomia para dizer que conhecia suas expressões.
Corri para o ponto de ônibus para não perder a oportunidade de encontrá-lo ainda na porta da faculdade. Antes mesmo do ônibus chegar, mandei um sms peguntando se ele estava na aula ainda. Ele respondeu que sim com emoticons de sorriso e mandei outra pedindo que me esperasse no mesmo lugar que ficávamos todos os dias, pois estava indo ao seu encontro. Sua forma de digitar aparentemente estava preocupada com a estranheza de minha reação, mas não quis adiantar o assunto que queria tanto falar com ele e que não poderia esperar para o dia seguinte. Chegando na Ufu, corri até o corredor do bloco onde ele estudava e do outro lado, na mesma arvore que ficávamos toda noite, o vi encostado na "nossa" arvore e de cabeça baixa digitando no celular. No mesmo instante recebo uma mensagem dele perguntando onde eu estava. Apenas pedi para que olhasse para frente. Ainda estava à uns quatro metros de distância quando ele levantou a cabeça e me viu ofegante indo em sua direção. Seu olhar se encheu de vida e sorriu. Toda vez que ele sorria serrando os olhos, fazia meu coração palpitar. Ele tentou falar, mas apenas pedi que me deixasse falar primeiro:
- Desculpa, sei que essa não é a hora, que está cansado e que só pensa em jantar, tomar banho e dormir. O problema é que eu não conseguiria dormir se não falasse sobre isso com você ainda hoje.
Ele apenas olhava para mim com expressão de preocupação e seu sorriso tinha desaparecido.
- Estava em casa pensando em tudo o que aconteceu nestes dias e em nós dois... Não sei se estou pronto para isso ainda, nem sei se realmente sirvo para ser a pessoa ideal para você, mas quero que saiba que me esforçarei todos os dias para ser esta pessoa. Não esperava sentir o que estou sentindo por você e não quero simplesmente ignorar isso como fiz tantas vezes...
Segurei sua mão, foi neste momento que percebi o quanto as minhas estavam tremendo. Minhas orelhas queimavam e seus olhos ficaram arregalados quando me ajoelhei e de joelhos olhei fixamente para seus olhos e disse:
- Emerson, estou aqui agora, de frente para você para mostrar o quanto estou entregue a você. Quero que a partir de hoje, sob esta arvora que foi o cenário do surgimento de tudo o que sinto por você, eu possa te chamar de meu e ser seu. Emerson, você quer namorar comigo?
Minhas pernas ainda estavam bambas e minhas mãos suavam nas suas esperando sua resposta. Ele resolveu não falar nada, apenas endireitou os óculos em seus olhos, se ajoelhou diante de mim e olhando para os meus olhos na mesma altura dos seus disse:
- Realmente não esperava algo assim, tão inusitado de sua parte. Você é incrível e conhecer você durante este período me fez acreditar em alma gêmea, em alguém que pudesse fazer dos meus dias mais bonitos e felizes. Não preciso responder sua pergunta, até porquê para mim, já estávamos namorando. Sei que oficializar isso é uma forma de concretizar e começar a somar os dias de felicidade. Gustavo, é lógico que aceito ser seu namorado.
Neste momento ele me beijou. Minha mão direita procurou sua nuca, enquanto a esquerda não soltava sua mão direito. Nos beijamos por pouco tempo, meu corpo ainda tremia quando ouvi palmas e gritos eufóricos ao nosso redor. Quando abrimos os olhos, o bloco estava repleto de pessoas que aplaudiam, gritavam, filmavam ou batiam fotos de nós dois. Fiquei sem saber o que fazer naquela situação. Já o Emerson se levantou, me ajudou a levantar e de mãos dadas, tentamos sair do meio das pessoas como se nada tivesse acontecido. Ele foi surpreendido por algumas colegas de curso que o abraçava e me olhavam com olhos brilhando. Tentei ser educado da melhor forma possível tentando disfarçar o constrangimento. Logo em seguida todos se dispersaram e fomos embora. Com a mochila do Emerson nas costas, fomos até o ponto de ônibus. Lá, mesmo fingindo sermos apenas amigos, eram inevitáveis os sorrisos e comentários sobre nós dois. Ele tentava ignorar a todos olhando para mim e falando sobre como eu fui louco em fazer aquilo. Nem eu sabia ao certo o motivo, a única certeza que tinha, era da minha vontade de gritar ao mundo que nas minhas costas, estavam os pertences do cara mais lindo da Ufu, de Uberlândia, de Minas, do Brasil, do mundo e que era a partir daquele momento, meu namorado. Nos despedimos com um beijo e quase que não soltava sua mão. O vi ir embora com o coração na mão. Não queria me separar dele nunca mais, mas tinha que deixá-lo ir. A única coisa que me confortou, foi saber que em poucas horas o veria passar mais uma vez por mim do outro lado do vidro no trabalho com o sorriso mais lindo do mundo.
Cheguei em casa radiante e quando entrei no quarto o Niel nem tinha se movido. Era estranho imaginar que ele passou todo este tempo enfurnado naquelas páginas sem movimentar um dedo além do que passavam as folhas. 
- Então... Encontrou seu futuro namorado?
Me deitei e fiquei sonhando com todo o que tinha acontecido e respondi:
- Sim, mas agora ele não é mais meu futuro namorado. É meu atual.
Me assustei com o barulho que o livro fez ao ser fechado. Olhei para o Daniel e o vi apenas tirando todos aqueles materiais de estudo da cama e se virando para a parede.
- O que houve?
- Nada, só estava esperando você chegar para dormir.
Era nítida sua reação estranha, só não soube identificar se era raiva, ciúme ou apenas coisa de minha cabeça. Preferi fingir que não havia percebido nada. Desejei boa noite, apaguei a luz do quarto e dormi com um sorriso no rosto e o coração batendo mais forte.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

10 - Do Preto ao Verde - Surpresas.

Ainda estava deitado olhando para telhado enquanto o Niel ficava falando sobre nossa performance, sobre os comentários e no que aquilo representava em ganhos financeiros, quando recebi uma mensagem com os dizeres:

"Adorei seu desempenho.
Ass.: Felipe."

A voz do Daniel já estava longe e quando li aquela mensagem o mundo simplesmente silenciou. Não sabia se aquela mensagem era pura ironia e ele estava extremamente decepcionado comigo ou eram uma confirmação do que o Leonardo falou. Saber que o Felipe me viu com o Niel na cama, não refletia apenas em estar ou não decepcionado comigo. Alguns questionamentos entraram com força em minha mente e não queriam sair... 'O que ele estava fazendo vendo aquele vídeo? Como descobriu sobre ele? Será que andava visualizando o Niel a muito tempo? Nossa, será que o Niel sabe que tem gente de Uberlândia o visualizando?' Muitas perguntas estavam sem respostas. Contei para o Daniel o que estava acontecendo e foi notória sua expressão de desespero. Ele ficou tão perplexo e preocupado que seus olhos se arregalaram, sua pele ficou tão pálida que me levantei e fiquei olhando para ele com preocupação. Estava só esperando que desmaiasse para pedir socorro. Ao invés disso, apenas se deitou e calou. Não falamos mais nada um para o outro e fomos nos deitar.
Os pássaros já estavam cantando lá fora e a claridade do Sol começou a entrar no quarto pelas brechas da janela. Meus olhos não conseguiram fechar em momento algum quando ouvi o Niel perguntando se eu estava acordado. Assenti apenas com um sussurro. O Daniel estava igual a mim, perdido em pensamentos quando seu despertador começou a tocar. Ele apenas o desligou e permaneceu deitado. Dez minutos depois e ele ainda não havia levantado. Perguntei se não ia para a aula e sua resposta foi apenas a confirmação do que imaginava. Sua vergonha e medo de ter sido reconhecido pelos seus colegas de faculdade o deixaram sem ações. Pela primeira vez o vi abatido e sem ânimo de ir para estudar. Diferente do Niel, tive que me levantar e enfrentar o mundo lá fora. Achando que todos ao meu redor sabiam o que tínhamos feito na noite passada, tentei manter minha rotina e  ignorando minha imaginação que criava pessoas que ficavam me observando com olhares acusadores. Passei o dia fingindo que estava tudo bem. 
No trabalho, fiquei sentado na hora do meu intervalo sem ânimo de sair da minha posição de apoio. Sentado e olhando as pessoas passarem por trás do vidro, vi algumas indo para o banheiro, chegando para trabalhar e outras indo embora. Depois de uns quinze minutos percebi alguém me olhando pelos cantos dos olhos enquanto passava. Fiquei sem graça e abaixei a cabeça. Não sabia porque ele tinha me olhado, a única hipótese que me passou pela cabeça, foi de que tinha me visto naquela maldita sala na internet. Quando levantei a cabeça, ele já não estava mais lá. Minha garganta ficou seca e fiquei com vontade de lavar o rosto. Me levantei, fui direto ao banheiro, entrei em um dos boxes, me sentei no vaso sanitário e fiquei pensando no que fazer diante daquela mensagem do Felipe. Não entendia o motivo de ele ainda não ter dado sinal de vida. Olhei no relógio e vi que faltavam poucos minutos para acabar minha pausa. Suspirei, me levantei, dei descarga para dar a impressão que estava usando o box para sua real função e abri a porta. Quando saí, vi o garoto que havia me olhado minutos antes diante de mim. Ele estava lavando as mãos e pelo espelho me viu parado na porta do box. Seu rosto esboçou um sorriso, enxugou as mãos com um papel toalha e se virou para mim enquanto eu lavava minhas mãos.
- Oi?! Sou o Emerson.
Não entendo porque sempre fico sem saber o que fazer quando alguém que não conheço começa a falar comigo. Apenas continuei lavando minhas mãos e olhando para ele pelo espelho respondi:
- Oi, o meu é Gustavo.
- Notei que você ficou vermelho quando me viu te olhando lá fora.
Enxuguei minhas mãos no papel toalha e me virei para ele tentando saber o que dizer para poder sair daquele lugar o mais rápido possível. Estava na cara que ele tinha visto o vídeo. Não havia outra razão para aquela reação repentina ao me ver.
- É que não tenho o costume de ver ninguém olhando para mim.
Tentei demonstrar simpatia e me virei para passar em direção a saída, mas o Emerson me segurou pelo braço e falou baixo:
- Por que você não relaxa um pouco e me deixa te ajudar com isso?
Virei meu olhar para seu rosto e mesmo com suas palavras ameaçadoras, sua expressão era de pura doçura e sinceridade.
- Vamos fazer assim... Saiu às vinte horas. Vou te esperar lá fora. Assim conversamos um pouco.
Com um sorriso desconcertado me soltou e disse que sairia meia hora antes de mim, mas que ficaria me esperando.
Antes de sair, olhei para trás e vi o Emerson olhando para mim com a cabeça um pouco baixa e com as mãos nos bolsos de sua calça jeans. Emerson tinha minha altura, tinha um pouco mais de corpo que eu, seu quadril era largo e sua bunda era marcada pela calça justa. Seus cabelos eram curtos loiros e bem penteados. Tinha olhos azuis e sua pele era de um branco pouco bronzeado pelo Sol. Sem dúvida achei aquele cara uma gracinha. Sorri e sumi de seu campo de visão enquanto saía.
Depois que me sentei para voltar a atender ligações, vi o Emerson passando pelo outro lado do vidro, olhou e sorriu discretamente para mim. Retribui sorrindo e fiquei com ele na cabeça até a hora de ir embora. Já na saída o vi sentado, com seus olhos compenetrados em um livro que de longe reconheci a capa, "Anjos e Demônios, do Dan Brown". Já havia lido aquele livro à alguns anos e amava a história. Sentei ao seu lado, esperei que notasse minha presença. Logo em seguida, marcou o livro com  um marcador, guardou em sua mochila e sorrindo se virou para mim, apoiou o braço no encosto do banco de madeira e colocou a mão no rosto. Seus olhos brilhavam e meu coração pulava com tanta delicadeza e doçura em minha frente.
- Então, queria que me desculpasse pela forma que te tratei lá dentro. Juro que não sou destes que faz sacanagens em banheiros públicos. Só não soube o que fazer, tive medo de não ter outra oportunidade de ficar a sós com você. Agi sem pensar.
- Tudo bem... Percebi o tremor de sua mão em meu braço. Se você tivesse visto como seu rosto estava rubro, garanto que faria o mesmo que eu.
Emerson ao longo de nossa conversa demonstrou ser o oposto do que aparentou no banheiro. Com certeza sua personalidade era muito forte, era decidido e conversava sobre vários assuntos com propriedade. Suas palavras eram inteligentes e seu raciocínio era muito lógico. Seus dezenove anos sem dúvida foram muito bem aproveitados. De vez em quando o tocava no braço com meus dedos e notoriamente ele ficava constrangido. Quando olhei no relógio, já eram dez e quarenta. O tempo tinha passado tão rápido que não havíamos notado. Sem querer, nos despedimos ali mesmo e quando fui abraçá-lo, ele me apertou com força, disse que foi muito bom conversar comigo e sem entender sua reação, ele olhou para todos os lados possíveis, virou para mim em me deu um beijo. Seus lábios eram macios, quentes e doces. Por um momento pensei estar beijando um anjo. Fechei meus olhos e deixei que a situação tomasse conta do momento. Depois que nos despedimos, fiquei com seu sorriso na cabeça e pensei como é bom ser o motivo da felicidade de alguém, nem que seja por alguns instantes.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

9 - Infra Vermelho - Deixando o fogo queimar qualquer dúvida.

Já passavam das vinte e três horas quando houvi o barulho da chave do Niel girando a fechadura da porta da sala. Continuei deitado com os braços na nuca e olhando para o teto. Não me virei para cumprimentá-lo quando o percebi entrando no quanto. Vendo que ainda estava acordado, Daniel me cumprimenta, joga sua mochila no canto próximo ao pé de sua cama, se senta virado para mim e tirando a roupa puxou assunto:
- Ainda acordado? O que será que está fazendo você perder o sono até uma hora destas?
- É que recebi uma visita que me deixou muito confuso.
- Ah Gu, você também em? Fica falando de mim mas não sossega com ninguém, vive cheio de encontros por aí. 
Então comecei a explicar quem era o Leonardo, o que ele é e foi do Felipe e o que ele me disse. Daniel apenas escutava tudo enquanto tirava sua roupa ficando apenas de cueca. Particularmente, fiquei um pouco perdido quando sem nenhum pudor, ele tirou a calça esticando as pernas em minha direção, marcando todo o volume em sua cueca apertada. Tentei manter o foco no que estava falando e olhando para o teto. Daniel pulou em cima de mim e me assustei com sua ação repentina. Sem esperar, aquele garoto com seu corpo desejado por tantos pela internet estava sobre mim, encostando todo seu corpo suado no meu. Fiquei parado, olhando em seus olhos, que estavam um pouco fechados devido ao seu sorriso inocente e espontâneo. Ele apenas ficou me olhando por alguns instantes e depois encostou seus lábios nos meus em um beijo rápido e disse:
- Acho que você deveria parar de se preocupar tanto com sentimentos e fazer o que tem vontade. Tenho certeza que do mesmo jeito que você está ficando excitado agora, você ficaria com estes caras. Olha, se eles querem te levar para a cama, e você também está com vontade, então aproveita. Agora me deixa tomar banho, por que também estou começando a me excitar com o pulsar do seu brinquedinho no meu.
Então, Niel me deu outro beijo e se levantou correndo para o banheiro. Do mesmo jeito que estava quando ele pulou sobre mim, fiquei. Ainda perplexo com minha excitação instantânea e um tanto com vergonha. Não sabia se sorria ou se me tocava diante da cena que havia acabado de participar. 
- Gustavo, você acha melhor eu ficar pensando em você aqui no banheiro ou prefere que eu use minha imaginação na prática?
- Cala a boca Niel. Deixa para desperdiçar seu gozo com os velhos que fazem o mesmo olhando para você na internet.
Na mesma hora o Daniel deu uma gargalhada e falou que nem todos eram velhos, que tinham caras jovens e com corpos esculturais que pagavam para vê-lo. Fiquei pensando se conhecia algum deles, quem eram o porque pagavam para ver aquilo do outro lado da tela. Ainda estava perdido em pensamentos quando o Daniel entrou no quanto apenas coberto pela toalha e completamente molhado. O que me deixou completamente excitado, vendo aquelas gotas d'água escorrendo por todo seu corpo completamente definido. Sem dúvidas eu invejava cada músculo de suas costas e a perfeição de sua bunda, que eram redondas, empinadas e sem um fio de pelo se quer. Fingi indiferença e falei:
- Não entendo porque não usa a toalha para se enxugar e pára de molhar a casa toda vez que sai do banheiro.
- Cala a boca, que hoje você vai me ajudar com meu trabalho virtual.
Fiquei extremamente curioso com suas palavras e apenas fingi ignorar.
- Nem adianta fingir que não ouviu. Já faz mais de uma semana que agendei para hoje uma cena com alguém. Claro que será com você. A culpa não é minha se você foi tão convincente em nossa primeira experiência.
Fiquei pensando se ele se tocou no quanto representavam aquelas palavras: "Primeira experiência". 
- Bom, Gustavo. Daqui a alguns minutos vou começar a cena. Vou apenas confirmar que teremos sua participação hoje e esperar uns minutos para a novidade se espalhar e aumentar o número de acessos. 
Ele falava sério enquanto colocava seu plano em prática digitando em seu pc.
- Você vai ficar ao lado do computador apenas para ligar a exibição quando eu voltar molhado do banheiro, vai virar a câmera para mim e me seguir com ela até me posicionar em frente a cama, deixando de fundo uma parte da porta do quarto. Você vai deixar uma parte da porta sem aparecer para que possa sair e aparecer no canto da imagens olhando para mim. Depois disso você sabe o que fazer.
Prestei atenção em cada uma de suas palavras e tentei fazer tudo da forma que ele planejou. Liberei as imagens quando ele estava vindo e escorrendo gotas de água por todo o seu corpo. Daniel vinha na direção da câmera lentamente, demonstrando uma naturalidade digna de ator. Sem dúvidas ele interpretava muito bem aquele papel pervertido, que não combinava nem um pouco com a aparência que demonstrava para o mundo lá fora. Por conta própria, fiquei dando zoons em seu corpo, seguindo cada movimento planejado se seus dedos sobre ele. Então tirei o zoom, deixei na posição planejada e saí do quarto pelo canto para não aparecer na imagem. Confesso que já estava excitado e não foi nem um pouco difícil demonstrar excitação e desejo por aquele corpo nu e molhado em minha frente. Apareci no cando da imagem pela porta, ele demonstrou ter percebido minha presença e esboçou um leve sorriso em frente a câmera olhando para mim. Me aproximei, sem saber onde pôr minhas mãos. Daniel apenas se virou, me olhou nos olhos, segurou meus braços e deixando sua toalha cair, puxou meus braços em sua direção. Em reflexo segurei suas costas. Não conseguia tirar os olhos dos dele e sorrindo ele falou baixinho:
- Vamos para a cama e fingir uns amassos...
Não sei se foi meu desejo ou o calor do momento, mas suas palavras soaram como uma abertura e apertei seu cabelo com força. Daniel abriu a boca com a leve dor causada e serrou os olhos. Aquela cena me deixou cego, não pude simplesmente ignorar todo meu fogo e encostei meus lábios nos dele, minhas língua passeava dentro de sua boca e roçava na dele. Daniel envolveu seus braços em meus ombros, me abraçando com força e respirando cada vez mais ofegante. Ficou notório seu desejo e a ardência de meu corpo apenas aumentava. Minhas mãos deslizavam pelas suas costas, e apertavam cada centímetro. As pernas dele subiam e desciam constantemente. Parecia que estava tentando montar em mim, que estava rígido e não parava de movimentar meu quadril em direção ao seu corpo. Em um movimento rápido e usando toda sua força, Daniel me segurou pelo braço, me jogou em cima se sua cama e nela ficou de joelhos. Puxou minhas pernas cada uma para um lado, colocando seu corpo no meio. Ainda não sabia qual era sua intenção, mas aceitei e observei seus movimentos. Daniel levantou minhas pernas com cada um dos braços e desceu sua língua da parte inferior da minha coxa esquerda passando pela minha virilha, escorregando pelas minhas bolas e repousando em meu traseiro. Sua boca passeava entre beijos, gemidos e lambidas molhadas. Não conseguia olhar para ele, fiquei de olhos fechados sentindo sua boca em mim até sentir seu dedo entrar na brincadeira. Fiquei assustado com o que ele estava pretendendo. Sem esperar, ele começou a subir sua boca, passando novamente pelas minha virilha e segurando meu pênis, lambeu e cuspiu na cabeça deixando sua saliva escorrer. Niel gemia de uma forma que com certeza excitaria até um cego que estivesse com aquela imagem ligada no computador. Sua cabeça subia e descia enquanto sua respiração ofegante se misturava com seus gemidos e dedos que deslizavam pelo meio de minha bunda. Sem dúvidas eu estava em êxtase e rompendo meus gemidos gritei com seu dedo que me penetrava aos poucos e olhando para ele com olhar de súplica não tive forças para alertá-lo, apenas gemi e prendi a respiração quando todo meu gozo jorrava para dentro de sua boca. Seu dedo repousou dentro de mim enquanto eu contraía a cada jato que saía. Niel apenas esperou pacientemente com leves gemidos cada gota sair. Por fim, soltei o ar preso em meus pulmões com alívio e ainda respirando ofegante, Daniel cuspiu todo meu gozo de sua boca em minha barriga, limpou o canto da boca com seu polegar e sorrindo, colocou seu joelho em cada lado de meu corpo, deixando seu pênis bem próximos a mim e disse:
- Agora é a minha vez.
Aquelas palavras me estimularam à apenas levantar minha cabeça em direção ao seu quadril. Com um braço apoiei o peso de meu corpo e com o outro deslizava minha mão pelas suas pernas, bunda e barriga. Era notório seu excitação quando minha mão deslizava em seu corpo e abusei disto enquanto ele se masturbava olhando para mim. Seu quadril se movimentava como se estivesse penetrando um corpo em sua frente e de repente, sua mão que esfregava seus mamilos segurou minha nuca e apertando meu cabelo, gozou em cima de mim. Fiquei de olhos fechados e boca entreaberta. Senti seu esperma quente e espeço escorrer pelo canto de meus olhos, entrar em minhas boca e outros foram jorrados com tanta pressão que só depois percebi que escorriam pela parede e outros melaram meus cabelos. Assim que terminou, ele me olhou, sorriu, me beijou e se virou para desligar a sala. Ainda de costas para mim Daniel sorrindo disse:
- Acho que acabamos de conseguir o dinheiro do aluguel de pelo menos três meses.

domingo, 20 de outubro de 2013

8 - Preto - A força da terra e a escuridão da incerteza.

Logo pela manhã, acordei ansioso e preocupado. Tive um sonho muito estranho. Nele, uma ex que deixei em Natal estava triste e no sonho, olhava para mim falando que nunca tinha me esquecido, que queria viver ao me lado para sempre, como em nossos planos passados. Fiquei com aquilo na cabeça durante o dia todo. No trabalho, Otávio me questionou o que estava acontecendo, mas minha angústia era tanta que nem com ele consegui desabafar. Já estava voltando para casa quando meu telefone toca e nele, apareceu o nome do Leonardo. Foi aí que lembrei de nosso encontro. Atendi depois de alguns instantes pensando no que dizer:
- Alô?
- Oi, Gustavo. já está saindo do trabalho?
- Já sim, estou quase na estação.
- Então me espera na saída do Shopping, estou chegando.
- Ok, mas não sei se vou querer sair hoje. É que não estou muito bem.
- Podemos apenas conversar um pouco, posso te deixar em casa, sei lá.
- Tudo bem, não quero furar com você por causa disso. Te espero, então.
- Beleza. Até já.
- Até.
Fiquei esperando pelo Léo por uns dois ou três minutos. Assim que se aproximou, notou logo minha expressão desanimada:
- Nossa. Você realmente não está com interesse de sair.
- Estou bem... Para onde vamos?
- Que tal conversarmos um pouco por aqui mesmo?
- Não sei... Passei o dia aqui dentro. Se quiser, podemos ficar um pouco lá em casa.
- Pode ser, mas vamos primeiro lá dentro para comprar algo para jantarmos.
Apenas assenti sem falar nada. Fomos direto para a praça de alimentação, compramos pizza com refrigerante e voltamos para a entrada do shopping em direção a estação para irmos para minha casa. Chegando lá, deitamos os dois no meu colchão, jantamos e ficamos ouvindo música, mostrei fotos, bandas e o mapa de Natal. Aquilo me fez lembrar tanta coisa que minha depressão apenas aumentou. Comentei com o Leonardo que aqui em Udia as coisas não estão sendo muito positivas e não sei por quanto tempo irei suportar esta situação. Falei que aqui estou longe de todos que me amam e mesmo sabendo que conheci pessoas maravilhosas, não posso simplesmente desconsiderar minha saudade daqueles que conviveram comigo por anos. Disse que adoro as pessoas que conheci aqui, mas as conheço apenas a três meses, muitas a bem menos tempo e querendo ou não, estava só. Fico pensando se voltar não seria mais fácil, estar perto de minha família de sangue e adotada, não tornariam as coisas muito mais fáceis. Leonardo apenas ouviu tudo de cabeça baixa, sem saber o que dizer. Afinal eu estava jogando muitas coisas em cima dele e ele mal me conhecia. Então, me segurou pelo braço, me puxou ao seu encontro e falou:
- Sei que você mal me conhece, mas nem que eu coloque uma algema em seu braço, mas não te deixo ir. Pelo que entendi, você veio no intuito de recomeçar... É exatamente isso que você está fazendo e no que depender de mim, seu objetivo será alcançado.
Leonardo tinha uma expressão de esperança muito grande nos olhos e não consegui ficar sério. Esbocei um sorriso amarelo, que fez com que seus olhos brilhassem. Então me abraçou com toda força e carinho que pode. Foi impossível não me sentir acalentado naqueles braços. Ficamos uns instantes naquela posição, até que ele começou a afagar meus cabelos e segurou minha cintura, exatamente como o Felipe fazia. Aquela situação me fez ficar constrangido e minhas orelhas começaram a pegar fogo. Segurei o braço do Léo e me afastei.
- Desculpa, Léo. É que não posso ficar assim com você.
- Por que não? Não estamos fazendo nada de errado.
- Na verdade eu estou. Sei que ele não te contou, mas não posso fingir que não estamos juntos. É que eu e o Felipe...
Leonardo não me deixou terminar e com um olhar sério me interrompeu:
- Sei que vocês estão juntos. Percebi pelo jeito que ele te olhava.
- Então por que você aceitou sair comigo? Por que você ficou dando em cima de mim daquela forma na internet?
- Fiz isso porque me interessei em você e não ia ignorar meu interesse só porque você está com um cara que não vai te fazer bem.
Fiquei confuso com suas palavras. Tirando o dia que conheci o Léo, em momento algum o Felipe me fez mal, pelo contrário, suas atitudes me traziam tanta felicidade que acabei acreditando que ele fosse o único motivo real de me fazer ficar aqui. Continuei em silêncio, apenas ouvindo suas palavras:
- Conheço o Felipe, ele não te apresentou como namorado por que é muito safado. Tenho certeza que ele não quer que esta informação se espalhe. Se tiver oportunidade, olhe o celular dele. Aposto que está cheio de mensagens de amor com vários caras.
Fiquei perplexo com as palavras do Leonardo e não soube o que dizer. Apenas abaixei a cabeça e me sentei novamente. Leonardo se sentou ao meu lado, repousou seu braço em meus ombros e prosseguiu:
- Tenho certeza que depois que ele te levar para a cama, sua atenção vai acabar e você vai ser apenas mais um troféu em sua parede com tantas pessoas incríveis que ele usou, jogou fora e deixou o coração partido.
- Ainda não estou acreditando nisso que você está dizendo, Léo. O Felipe é tão atencioso e cuidadoso comigo.
- Ele é um mestre na arte da conquista, isso não e novidade nenhuma. Não estou aqui para te convencer do contrário. Apenas não estaria sendo honesto com você se não te contasse. Posso esperar o momento certo para investir em você. Respeito suas escolhas e quero que saiba, estou por perto, qualquer coisa é só me chamar.
Então, Leonardo beijou meu rosto e se levantou afirmando que já estava na hora de ir embora. Me levantei para acompanhá-lo até o ponto de ônibus. Não demorou muito e este apareceu na esquina algumas ruas acima. Olhei para o Léo com ar de despedida e ele me abraçou com força e encostou meus lábios no seu até ouvirmos o som do ônibus se aproximando e disse:
- Não esquece que estou por perto. Qualquer coisa, sabe onde me encontrar. Beijo.
Sorri sem mostrar os dentes e dei tchau com uma das mãos na altura dos ombros. Fiquei parado, apenas olhando ele ir embora. Sem dúvida a semente plantada em minha mente foi muito bem regada pelas palavras do Léo e voltei para casa me perguntando quem era o Felipe e o que estava fazendo em Uberlândia.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

7 - Verde limão - Semente plantada.

Mais uma semana já estava se passando e eu continuava ignorando o Felipe. Não sabia se estava fazendo isso ainda pela raiva da forma que fui tratado ou por causa do que fiz no final de semana anterior. O fato é que não estava nem um pouco preparado para encará-lo. O Leonardo continuava falando comigo pela internet e vez ou outra investia com indiretas que passavam longe da descrição. Meus dias basicamente eram divididos entre ler, dormir, conversar um pouco com os amigos pela internet e trabalhar. Confesso que estava até me acostumando com esta rotina, quando voltando para casa depois de mais um dia de trabalho, me deparei com o Felipe sentado em um dos bancos de madeira na entrada da empresa. Meu nervosismo foi notório e fiquei parado sem saber o que fazer. Ele acabara de me ver e não poderia simplesmente voltar. Tive que seguir em frente. Juro que tentei passar por ele fingindo que não tinha o visto ou qualquer outra coisa, mas o Felipe percebendo que não iria falar com ele, me segurou com tanta força pelo braço que muito antes de gemer de dor, olhei para meu braço e só depois direcionar meu olhar para ele. Felipe nem me deixou falar e já foi empurrando suas palavras sobre mim:
- O que é que está acontecendo Gustavo? Por que você está me evitando deste jeito? Cara, já farão duas semanas que você não atende minhas ligações, que não retorna minhas mensagens. O que é que tá acontecendo com você?
A cada palavra, ele aumentava o tom de voz e espremia meu braço. Todos estavam olhando para nós dois, o que aumentou ainda mais meu constrangimento.
- Calma Felipe, vamos sair daqui e conversar, você está fazendo uma cena.
- Não estou nem um pouco preocupado com isso, quero apenas uma explicação. Garanto que se ela não for boa, sumo de uma vez de sua vida. Já que pelo que está parecendo, é o que você quer.
- Olha, vamos conversar, mas não aqui, por favor. Agora me solta.
Puxei meu braço com toda força que tive e tentei esconder meu nervosismo com a maior expressão de raiva que pude usar naquele momento.
Fomos para uma praça que fica do outro lado do shopping, por trás de uma igreja evangélica. Nem esperando sentar, Felipe pergunta:
- Pode me falar agora o que está acontecendo? Não é normal uma pessoa começar um relacionamento e com poucas semanas já sumir desta forma. Cara, se somos namorados, você me deve explicações.
- Em primeiro lugar, este lance de ser seu namorado ainda nem entrou direito em minha cabeça. Eu estava bêbado quando te pedi em namoro, nem sei por que você acreditou nisso.
- Então quer dizer que você não quer namorar comigo, que perdi meu tempo, que você estava apenas brincando comigo e agora que enjoou está me dispensando?
- Não foi isso que eu quis dizer, Felipe...
- Mas é o que está aparentando.
- Cara, me deixa falar. Depois que terminar você fala o que quiser.
Então comecei a explicar o que estava se passando em minha cabeça sem olhar para ele um minuto.
- Não gostei nem um pouco da forma que você me tratou na frente do Leonardo. Você ficou tão empolgado com a presença dele que praticamente esqueceu de mim.
Ele tentou falar, mas pedi que me deixasse terminar:
- Você nem se quer me apresentou como seu namorado. Tive que saber por ele que vocês já tiveram um caso. Não sei o que se passa ela sua cabeça, mas garanto que naquele momento, não passou em me apresentar como namorado.
Você sabia que o Léo me adicionou no Face?
- Não me importa o que ele pensa. Não te apresentei como meu namorado porque pensei que você fosse ficar constrangido se o fizesse.
- Eu ficar constrangido por que você me apresentou para um ex seu como seu atual? Você só pode estar de brincadeira, né?
- Não imaginei que você fosse se importar tanto com isso, nem ligo pra isso. Se quiser, ligo para ele agora e falo que você é meu namorado. Se for este o problema.
- Deixa de ser ridículo, a oportunidade que você teve já passou, agora não adianta nada. Ou será que você só pensou em fazer isso só porque falei que ele me adicionou?
Felipe começou a sorrir. Seu sorriso parecia mais como deboche do que qualquer outra coisa.
- Do que você está rindo? Está achando que estou inventando isso?
Minha raiva era tanta que tive vontade de voar em seu pescoço, mas não adiantaria nada. Apesar de ser magro, Felipe era bem mais forte do que eu.
- Só não passa pela minha cabeça, o Léo querer alguma coisa com você. Tu não faz o tipo dele, Gustavo.
- Olha, não quero mais falar sobre isso. Já estou de saco cheio desta história e você não está ajudando nada.
- Você é ridículo, Gustavo. Como você pode sumir desta forma por causa de uma besteira destas?
- Isso não é besteira, já falei que não vou mais falar sobre isso. Cansei.
- Então é assim? Vai ficar estranho comigo por isso? Vem cá querubim, deixa de besteira e vem dar uma beijinho em seu namorado, vem?
Felipe tinha um certo dom de mudar meu humor. Não conseguia ficar sério quando ele vinha com seu jeito doce de me abraçar e me encher de beijos. Pouco tempo depois não consegui mais fingir que ainda estava com raiva e cedi aos seus encantos. Ficamos nos beijando e abraçados por um bom tempo até a hora que tive que partir. Felipe me deixou em casa me dando mais alguns amassos dentro de seu carro. Me despedi com um sorriso no rosto e uma ideia fixa na cabeça:
- Se ele pensa que não faço o tipo do Leonardo, está muito enganado. Sei até o que fazer para provar do contrário.
Assim que entrei em casa fui direto para o computador. Ignorei a presença do Niel, que estava para variar,se masturbando para os tarados no outro lado do computador e saí do quarto. Fiquei sentado no chão da sala e comecei a conversar com o Léo.
- Boa noite, moço.
- Boa noite Gu. Chegou agora do trabalho?
- Foi, estou um pouco cansado, mas me deu uma vontade de sair amanhã a noite. Dar uma volta, sei lá.
- Se quiser, podemos sair um pouco, conheço uns lugares bem interessantes aqui perto de casa. Interessado?
- Pode ser... Amanhã saiu do trabalho às sete da noite. Nos encontramos no Shopping mesmo?
- Ótimo, por mim está marcado.
- Por mim também. Até fiquei excitado com o programa, mas preciso ir dormir. Boa noite.
- Ficou excitado, que ótimo. Pelo visto não foi só eu. rsrsrs
Boa noite, garoto bonito. ;)
- Boa noite.
Com um sorriso no rosto, desliguei o computador e fui tomar banho. Fiquei tão empolgado com o que acabei de fazer, que o corpo do Léo não saiu de minha cabeça um instante durante o banho e antes de dormir pensei que foi muito mais fácil do que imaginava.