Ainda estava deitado olhando para telhado enquanto o Niel ficava falando sobre nossa performance, sobre os comentários e no que aquilo representava em ganhos financeiros, quando recebi uma mensagem com os dizeres:
"Adorei seu desempenho.
Ass.: Felipe."
A voz do Daniel já estava longe e quando li aquela mensagem o mundo simplesmente silenciou. Não sabia se aquela mensagem era pura ironia e ele estava extremamente decepcionado comigo ou eram uma confirmação do que o Leonardo falou. Saber que o Felipe me viu com o Niel na cama, não refletia apenas em estar ou não decepcionado comigo. Alguns questionamentos entraram com força em minha mente e não queriam sair... 'O que ele estava fazendo vendo aquele vídeo? Como descobriu sobre ele? Será que andava visualizando o Niel a muito tempo? Nossa, será que o Niel sabe que tem gente de Uberlândia o visualizando?' Muitas perguntas estavam sem respostas. Contei para o Daniel o que estava acontecendo e foi notória sua expressão de desespero. Ele ficou tão perplexo e preocupado que seus olhos se arregalaram, sua pele ficou tão pálida que me levantei e fiquei olhando para ele com preocupação. Estava só esperando que desmaiasse para pedir socorro. Ao invés disso, apenas se deitou e calou. Não falamos mais nada um para o outro e fomos nos deitar.
Os pássaros já estavam cantando lá fora e a claridade do Sol começou a entrar no quarto pelas brechas da janela. Meus olhos não conseguiram fechar em momento algum quando ouvi o Niel perguntando se eu estava acordado. Assenti apenas com um sussurro. O Daniel estava igual a mim, perdido em pensamentos quando seu despertador começou a tocar. Ele apenas o desligou e permaneceu deitado. Dez minutos depois e ele ainda não havia levantado. Perguntei se não ia para a aula e sua resposta foi apenas a confirmação do que imaginava. Sua vergonha e medo de ter sido reconhecido pelos seus colegas de faculdade o deixaram sem ações. Pela primeira vez o vi abatido e sem ânimo de ir para estudar. Diferente do Niel, tive que me levantar e enfrentar o mundo lá fora. Achando que todos ao meu redor sabiam o que tínhamos feito na noite passada, tentei manter minha rotina e ignorando minha imaginação que criava pessoas que ficavam me observando com olhares acusadores. Passei o dia fingindo que estava tudo bem.
No trabalho, fiquei sentado na hora do meu intervalo sem ânimo de sair da minha posição de apoio. Sentado e olhando as pessoas passarem por trás do vidro, vi algumas indo para o banheiro, chegando para trabalhar e outras indo embora. Depois de uns quinze minutos percebi alguém me olhando pelos cantos dos olhos enquanto passava. Fiquei sem graça e abaixei a cabeça. Não sabia porque ele tinha me olhado, a única hipótese que me passou pela cabeça, foi de que tinha me visto naquela maldita sala na internet. Quando levantei a cabeça, ele já não estava mais lá. Minha garganta ficou seca e fiquei com vontade de lavar o rosto. Me levantei, fui direto ao banheiro, entrei em um dos boxes, me sentei no vaso sanitário e fiquei pensando no que fazer diante daquela mensagem do Felipe. Não entendia o motivo de ele ainda não ter dado sinal de vida. Olhei no relógio e vi que faltavam poucos minutos para acabar minha pausa. Suspirei, me levantei, dei descarga para dar a impressão que estava usando o box para sua real função e abri a porta. Quando saí, vi o garoto que havia me olhado minutos antes diante de mim. Ele estava lavando as mãos e pelo espelho me viu parado na porta do box. Seu rosto esboçou um sorriso, enxugou as mãos com um papel toalha e se virou para mim enquanto eu lavava minhas mãos.
- Oi?! Sou o Emerson.
Não entendo porque sempre fico sem saber o que fazer quando alguém que não conheço começa a falar comigo. Apenas continuei lavando minhas mãos e olhando para ele pelo espelho respondi:
- Oi, o meu é Gustavo.
- Notei que você ficou vermelho quando me viu te olhando lá fora.
Enxuguei minhas mãos no papel toalha e me virei para ele tentando saber o que dizer para poder sair daquele lugar o mais rápido possível. Estava na cara que ele tinha visto o vídeo. Não havia outra razão para aquela reação repentina ao me ver.
- É que não tenho o costume de ver ninguém olhando para mim.
Tentei demonstrar simpatia e me virei para passar em direção a saída, mas o Emerson me segurou pelo braço e falou baixo:
- Por que você não relaxa um pouco e me deixa te ajudar com isso?
Virei meu olhar para seu rosto e mesmo com suas palavras ameaçadoras, sua expressão era de pura doçura e sinceridade.
- Vamos fazer assim... Saiu às vinte horas. Vou te esperar lá fora. Assim conversamos um pouco.
Com um sorriso desconcertado me soltou e disse que sairia meia hora antes de mim, mas que ficaria me esperando.
Antes de sair, olhei para trás e vi o Emerson olhando para mim com a cabeça um pouco baixa e com as mãos nos bolsos de sua calça jeans. Emerson tinha minha altura, tinha um pouco mais de corpo que eu, seu quadril era largo e sua bunda era marcada pela calça justa. Seus cabelos eram curtos loiros e bem penteados. Tinha olhos azuis e sua pele era de um branco pouco bronzeado pelo Sol. Sem dúvida achei aquele cara uma gracinha. Sorri e sumi de seu campo de visão enquanto saía.
Depois que me sentei para voltar a atender ligações, vi o Emerson passando pelo outro lado do vidro, olhou e sorriu discretamente para mim. Retribui sorrindo e fiquei com ele na cabeça até a hora de ir embora. Já na saída o vi sentado, com seus olhos compenetrados em um livro que de longe reconheci a capa, "Anjos e Demônios, do Dan Brown". Já havia lido aquele livro à alguns anos e amava a história. Sentei ao seu lado, esperei que notasse minha presença. Logo em seguida, marcou o livro com um marcador, guardou em sua mochila e sorrindo se virou para mim, apoiou o braço no encosto do banco de madeira e colocou a mão no rosto. Seus olhos brilhavam e meu coração pulava com tanta delicadeza e doçura em minha frente.
- Então, queria que me desculpasse pela forma que te tratei lá dentro. Juro que não sou destes que faz sacanagens em banheiros públicos. Só não soube o que fazer, tive medo de não ter outra oportunidade de ficar a sós com você. Agi sem pensar.
- Tudo bem... Percebi o tremor de sua mão em meu braço. Se você tivesse visto como seu rosto estava rubro, garanto que faria o mesmo que eu.
Emerson ao longo de nossa conversa demonstrou ser o oposto do que aparentou no banheiro. Com certeza sua personalidade era muito forte, era decidido e conversava sobre vários assuntos com propriedade. Suas palavras eram inteligentes e seu raciocínio era muito lógico. Seus dezenove anos sem dúvida foram muito bem aproveitados. De vez em quando o tocava no braço com meus dedos e notoriamente ele ficava constrangido. Quando olhei no relógio, já eram dez e quarenta. O tempo tinha passado tão rápido que não havíamos notado. Sem querer, nos despedimos ali mesmo e quando fui abraçá-lo, ele me apertou com força, disse que foi muito bom conversar comigo e sem entender sua reação, ele olhou para todos os lados possíveis, virou para mim em me deu um beijo. Seus lábios eram macios, quentes e doces. Por um momento pensei estar beijando um anjo. Fechei meus olhos e deixei que a situação tomasse conta do momento. Depois que nos despedimos, fiquei com seu sorriso na cabeça e pensei como é bom ser o motivo da felicidade de alguém, nem que seja por alguns instantes.