domingo, 20 de outubro de 2013

8 - Preto - A força da terra e a escuridão da incerteza.

Logo pela manhã, acordei ansioso e preocupado. Tive um sonho muito estranho. Nele, uma ex que deixei em Natal estava triste e no sonho, olhava para mim falando que nunca tinha me esquecido, que queria viver ao me lado para sempre, como em nossos planos passados. Fiquei com aquilo na cabeça durante o dia todo. No trabalho, Otávio me questionou o que estava acontecendo, mas minha angústia era tanta que nem com ele consegui desabafar. Já estava voltando para casa quando meu telefone toca e nele, apareceu o nome do Leonardo. Foi aí que lembrei de nosso encontro. Atendi depois de alguns instantes pensando no que dizer:
- Alô?
- Oi, Gustavo. já está saindo do trabalho?
- Já sim, estou quase na estação.
- Então me espera na saída do Shopping, estou chegando.
- Ok, mas não sei se vou querer sair hoje. É que não estou muito bem.
- Podemos apenas conversar um pouco, posso te deixar em casa, sei lá.
- Tudo bem, não quero furar com você por causa disso. Te espero, então.
- Beleza. Até já.
- Até.
Fiquei esperando pelo Léo por uns dois ou três minutos. Assim que se aproximou, notou logo minha expressão desanimada:
- Nossa. Você realmente não está com interesse de sair.
- Estou bem... Para onde vamos?
- Que tal conversarmos um pouco por aqui mesmo?
- Não sei... Passei o dia aqui dentro. Se quiser, podemos ficar um pouco lá em casa.
- Pode ser, mas vamos primeiro lá dentro para comprar algo para jantarmos.
Apenas assenti sem falar nada. Fomos direto para a praça de alimentação, compramos pizza com refrigerante e voltamos para a entrada do shopping em direção a estação para irmos para minha casa. Chegando lá, deitamos os dois no meu colchão, jantamos e ficamos ouvindo música, mostrei fotos, bandas e o mapa de Natal. Aquilo me fez lembrar tanta coisa que minha depressão apenas aumentou. Comentei com o Leonardo que aqui em Udia as coisas não estão sendo muito positivas e não sei por quanto tempo irei suportar esta situação. Falei que aqui estou longe de todos que me amam e mesmo sabendo que conheci pessoas maravilhosas, não posso simplesmente desconsiderar minha saudade daqueles que conviveram comigo por anos. Disse que adoro as pessoas que conheci aqui, mas as conheço apenas a três meses, muitas a bem menos tempo e querendo ou não, estava só. Fico pensando se voltar não seria mais fácil, estar perto de minha família de sangue e adotada, não tornariam as coisas muito mais fáceis. Leonardo apenas ouviu tudo de cabeça baixa, sem saber o que dizer. Afinal eu estava jogando muitas coisas em cima dele e ele mal me conhecia. Então, me segurou pelo braço, me puxou ao seu encontro e falou:
- Sei que você mal me conhece, mas nem que eu coloque uma algema em seu braço, mas não te deixo ir. Pelo que entendi, você veio no intuito de recomeçar... É exatamente isso que você está fazendo e no que depender de mim, seu objetivo será alcançado.
Leonardo tinha uma expressão de esperança muito grande nos olhos e não consegui ficar sério. Esbocei um sorriso amarelo, que fez com que seus olhos brilhassem. Então me abraçou com toda força e carinho que pode. Foi impossível não me sentir acalentado naqueles braços. Ficamos uns instantes naquela posição, até que ele começou a afagar meus cabelos e segurou minha cintura, exatamente como o Felipe fazia. Aquela situação me fez ficar constrangido e minhas orelhas começaram a pegar fogo. Segurei o braço do Léo e me afastei.
- Desculpa, Léo. É que não posso ficar assim com você.
- Por que não? Não estamos fazendo nada de errado.
- Na verdade eu estou. Sei que ele não te contou, mas não posso fingir que não estamos juntos. É que eu e o Felipe...
Leonardo não me deixou terminar e com um olhar sério me interrompeu:
- Sei que vocês estão juntos. Percebi pelo jeito que ele te olhava.
- Então por que você aceitou sair comigo? Por que você ficou dando em cima de mim daquela forma na internet?
- Fiz isso porque me interessei em você e não ia ignorar meu interesse só porque você está com um cara que não vai te fazer bem.
Fiquei confuso com suas palavras. Tirando o dia que conheci o Léo, em momento algum o Felipe me fez mal, pelo contrário, suas atitudes me traziam tanta felicidade que acabei acreditando que ele fosse o único motivo real de me fazer ficar aqui. Continuei em silêncio, apenas ouvindo suas palavras:
- Conheço o Felipe, ele não te apresentou como namorado por que é muito safado. Tenho certeza que ele não quer que esta informação se espalhe. Se tiver oportunidade, olhe o celular dele. Aposto que está cheio de mensagens de amor com vários caras.
Fiquei perplexo com as palavras do Leonardo e não soube o que dizer. Apenas abaixei a cabeça e me sentei novamente. Leonardo se sentou ao meu lado, repousou seu braço em meus ombros e prosseguiu:
- Tenho certeza que depois que ele te levar para a cama, sua atenção vai acabar e você vai ser apenas mais um troféu em sua parede com tantas pessoas incríveis que ele usou, jogou fora e deixou o coração partido.
- Ainda não estou acreditando nisso que você está dizendo, Léo. O Felipe é tão atencioso e cuidadoso comigo.
- Ele é um mestre na arte da conquista, isso não e novidade nenhuma. Não estou aqui para te convencer do contrário. Apenas não estaria sendo honesto com você se não te contasse. Posso esperar o momento certo para investir em você. Respeito suas escolhas e quero que saiba, estou por perto, qualquer coisa é só me chamar.
Então, Leonardo beijou meu rosto e se levantou afirmando que já estava na hora de ir embora. Me levantei para acompanhá-lo até o ponto de ônibus. Não demorou muito e este apareceu na esquina algumas ruas acima. Olhei para o Léo com ar de despedida e ele me abraçou com força e encostou meus lábios no seu até ouvirmos o som do ônibus se aproximando e disse:
- Não esquece que estou por perto. Qualquer coisa, sabe onde me encontrar. Beijo.
Sorri sem mostrar os dentes e dei tchau com uma das mãos na altura dos ombros. Fiquei parado, apenas olhando ele ir embora. Sem dúvida a semente plantada em minha mente foi muito bem regada pelas palavras do Léo e voltei para casa me perguntando quem era o Felipe e o que estava fazendo em Uberlândia.

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