Nem chegamos a escolher um filme, o cinema estava completamente lotado e o desanimo para ver qualquer filme foi generalizado. O Romantismo passaria longe. Resolvemos jantar e Felipe ficou surpreso com o tamanho do prato que coloquei. Nem imaginei que nossa conversa fosse tão intensa. Falamos sobre tudo, sobre toda nossa história até o momento que nos conhecemos. Falamos sobre amores, sobre ficção, sobre nossas famílias e o que pretendíamos para o futuro. Definitivamente, ficar olhando ele me olhar com aqueles olhos mel me deixava estasiado. Queria entender o que um cara como ele via em alguém como eu. Não tenho nada demais, tenho apenas um metro e sessenta e nove de altura, moreno, olhos e cabelos castanhos, sou magro, com meus sessenta e dois quilos e minha personalidade também não é aquela que chama a atenção de alguém. Não da forma e intensidade que ele se vê atraído por mim. Queria mesmo entender.
-Felipe, sinceramente, por que está tão interessado assim em mim? Sei lá, nem tenho nada de mais e tem tanta gente muito mais interessante que eu fazendo qualquer coisa para estar ao seu lado.
- Você é diferente. Vi o quanto estava interessado em mim na boate, mas ao contrário de todos, você não veio se jogando em cima de mim, demonstra que é diferente deles com suas atitudes estranhas e seu sotaque me encanta. Gosto de estar com você, ver seu jeito constrangido com minha presença eleva minha auto-estima e me estimula a cada vez mais querer fazer algo novo para te agradar.
- Nada convencido, você, né?
- Não é isso, apenas não sou do tipo que fica levantando falsa modéstia. E outra, depois de nossa conversa de hoje, minha admiração por você só aumenta. Cara, largar tudo e vir para cá praticamente sem nada e viver como vive... Não sei se suportaria.
- Estou aqui por escolha e não pretendo voltar enquanto não alcançar meus objetivos. Já cometi muitos erros em minha vida e a escolha de ter vindo não pode simplesmente ser mais um destes tantos erros.
- É assim que se fala.
Continuamos conversando sobre pretensões, ele falando dos tantos relacionamentos vividos e eu me gabando por ter tido apenas dois e intensos romances.
Felipe era do tipo de cara que fazia de tudo para ver sua companhia bem. Ficou me oferendo mimos o tempo todo e não parava de me tocar. Parecia que sentia necessidade de ficar me pegando o tempo todo. Quando andávamos, colocava o braço em meus ombros em tom de brincadeira, me empurrava a cada cinco passos. Na mesa não parava de tentar segurar minhas mãos.
Não é que sou contra demonstrações de afeto, as vezes ligo o botão de "Foda-se" o mundo e até beijo na rua, mas isso é relativo, depende muito de meu estado de espírito. Neste dia eu estava muito constrangido com suas investidas e até me sentia mau pelo fato de estar recusando suas tentativas de aproximação. Foi durante uma destas tentativas que me virei e pedi para ele parar. Fiquei em sua frente e tentando ficar sério, disse:
- Acho bom você parar de ficar tentando andar de mãos dadas comigo aqui, não vou fazer isso com você agora. Entendeu?
Felipe segurou mais uma vez minha cintura e me puxou ao seu encontro, encostando meu quadril no seu e com seu sorrindo desconcertante tentou me beijar. Minhas pernas ficaram bambas no mesmo instante e o empurrei. Nisso ele esbarra num rapaz que estava por trás de nós. Fiquei sem graça e sem entender quando o Felipe olhou para trás se desculpando e sorrindo, o abraça. Senti uma ponta de ciúmes com o tamanho da intimidade deles, mas me contive e fiquei na minha esperando o momento que seria apresentado.
Felipe, ainda abraçado com ele me apresenta:
- Gustavo, este é o Leonardo. Léo, este é o Gustavo.
- Prazer.
Dissemos os dois aos mesmo tempo.
Leonardo era alto comparado a mim, deveria ter mais ou menos, um metro e setenta e cinco de altura, atlético, tinha ombros e costas largas, usava uma camisa pólo preta com mangas curtas, que revelavam a grande tatuagem que cobria quase toda a parte superior esquerda de um de seus braços fortes. Era praticamente todo largo, moreno e de cabelo liso, tinha os dentes mais alinhados que já vi na boca de uma pessoa. Seu cabelo era liso e usava uma franja que cobria sua testa inteira e sobrancelhas. Definitivamente aquele cara além de muito bonito, deveria ser muito gostoso. O que me intrigou, é que eles não se largavam em momento nenhum. O Léo não tirava as mãos da cintura do meu namorado e isso me incomodou um pouco, mas o que me incomodou mais, foi o fato dele não ter me apresentado como namorado, já que pelo nível de intimidade deles, com certeza o Léo era gay ou no mínimo, sabia que o Felipe era. Percebi também que o Léo não parava de me olhar, e toda vez que o Felipe falava comigo e olhava para mim, ele também olhava com aquele sorriso que sempre deixava seu rosto como o de um japonês, com seus olhos serrados. Tentava entrar na conversa, mas a intimidade deles não me permitia fazer parte daquele momento tão feliz e particular. Depois de tanto interagirem e ficar notório meu desconforto com a situação, o próprio Leonardo se afastou do Felipe, e se despediu afirmando que estava atrasado para a aula de seu curso de inglês.
Apertamos a mão um do outro, se despediram com um forte abraço, que para mim, demorou mais do que deveria, e Felipe voltou a me dar a atenção de sempre.
- O que houve, por que está com esta cara?
- Nada, só não entendi por que este agarrado todo com ele.
- Uai, ele é meu amigo e pode parar com isso, ciúmes nem combina com você.
- Quem disse que estou com ciúmes?
Não adiantou, minhas orelhas queimaram tanto com seu comentário que tinha certeza que ele viu o rubor de meu rosto.
Fomos embora e finalmente no carro pude me sentir mais a vontade. Felipe esperou eu entrar e antes mesmo de eu colocar o cinto, avançou sobre mim como um cachorro quando vê um estranho pulando seu quintal. Me pegou pela cintura e me puxou com tanta força que não tive reação. Seu beijo era forte, sua mão me puxava com cada vez mais força. Me beijava com a mesma intensidade que suspirava palavras de desejo e descontrole. Não soube o que fazer, foi tudo muito rápido. Apenas me deixei levar e retribui todo o desejo contido dentro daquele carro. Felipe em momento algum havia me tratado assim, eras sempre muito respeitador e controlado. Não sei o que deu nele para agir comigo com tanta virilidade. Com certeza me senti usado, objeto de seus desejos mais ocultos e sinceramente, adorei ter sido tratado assim.
Já estava em cima dele no banco da frente e quase sem roupa quando minha cabeça bateu no teto do carro e recobrei a consciência. Estávamos os dois muito excitados e eu tinha que fazer alguma coisa para parar com aquilo, caso contrário acabaríamos transando no estacionamento do shopping mesmo. Pedi calma e fui tentando me recompor e voltar para o banco do carona. Foi um pouco complicado, já que o Felipe era mais forte que eu. Depois de muita luta consegui me sentar e sorrindo, ele apenas falou:
- Não sei se vou conseguir ficar sem transar com você antes de conhecer sua Mãe. Você é muito gostoso, cara.
- Ah, cala a boca e vamos logo embora. Preciso dormir cedo.
Então ele ligou o carro e me deixou em casa. Nos despedimos e antes de ser agarrado novamente, saltei do carro com ele ainda em movimento.
- Calma, não precisava disso, não ia fazer nada.
Sei disso, saí assim para me proteger de mim mesmo e não do você.
Pisquei para ele, me despedi abrindo o portão e dando tchau.
Ele apenas sorriu e arrancou o carro sumindo de meu campo de visão.
Assim que entrei em casa, bati na porta do quarto achando que o Niel estava fazendo alguma sacanagem na internet. Notei que ele estava dormindo e depois de um bom banho para acalmar os ânimos, liguei o computador para olhar as atualizações do Facebook e estranhei quando vi a mais nova solicitação de amizade:
Leonardo Silvestre, amigo em comum: Felipe Martins.
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