quinta-feira, 10 de outubro de 2013

1 - Cinza - Renascimento.

Recomeçar... Acho que todo mundo já quis uma oportunidade de tentar de novo. Ter feito algo diferente, ter tomado outras decisões. Acho que foi justamente isso que me fez mudar. Vir para Uberlândia apenas com uma mala com mais sonhos e esperanças do que roupas foi basicamente uma maneira desesperada de tentar de novo. Chegar aos vinte e cinco sem ter conquistado nada sólido em minha vida, me fez acreditar que vindo para uma cidade completamente estranha, seria basicamente uma nova oportunidade de fazer diferente. Certo que deixei muita coisa para trás. Deixar minha família e amigos foi a parte mais dolorosa, mas é fato que todas nossas escolhas de qualquer forma exigem sacrifícios. Hoje olho para o cinza do telhado e fico imaginando, será que tomei a decisão correta? Isso, só o futuro dirá.


Dez e meia da manhã, o celular toca incessavelmente e a preguiça toma conta de todo meu corpo. Nem meus olhos consigo abrir. Queria ter vontade para ao menos desligar o despertador do celular. Me levanto ainda sem abrir os olhos, que aliás é um costume que tenho desde a infância. Me levanto, deixo o despertador tocando e ainda sonolento vou ao banheiro. Me olho no espelho e vendo meu rosto cansado, desanimado e com olheiras, penso por quanto tempo vou aguentar viver assim.

Tenho muita sorte de estar me saindo bem no trabalho, afinal, só em ter tido a sorte de ser contratado no dia seguinte que cheguei em Uberlândia já é algo para se animar. Lá venho me destacando pelo bom serviço prestado. Me revigora cada elogio de meus superiores e o que me motiva é saber que meus próprios colegas de trabalho me vêem como alguém que pode ser promovido rápido. Me assusta esta ideia de que as pessoas acreditam mais em mim do que eu mesmo. Não vejo tanto potencial assim em mim, mas apesar de tudo, procuro mostrar constantemente meu sorriso e a fé em conquistar algo melhor. 
As vezes a necessidade nos obriga a querer algo que ainda não estamos prontos para encarar. Sei que não estou preparado para tentar uma promoção agora, sei que ainda tenho muito o que aprender. O problema é que, apesar de Uberlândia ser uma cidade linda, assim como as outras, ela não tem pena daqueles que nela residem. Meu salário de atendente de telemarketing não está sendo suficiente para pagar meu aluguel e me alimentar, já que não tenho nada além de um colchão inflável e um edredom para me aquecer nas noites de frio, que por sinal são muito frias. Uberlândia é uma cidade que me confunde. Pois pela tarde o Sol deixa a temperatura muito quente, mas quando a noite chega o frio é de congelar. Confesso que ainda estou me acostumando com isso. De qualquer forma, fico pensando em como melhorar minha situação. Comer na rua sai muito caro, já que não tenho geladeira nem fogão, comer em casa não é uma opção. De qualquer forma, acho que esta é a pior parte de minha vida "nova" aqui em minas.
Pelo menos uma vez por mês me dou ao luxo de sair para me divertir na noite uberlandense. E foi em uma destas noites que o conheci. Olhos puxados, magro, pele branca e cabelos negros como carvão. Fiquei olhando seu jeito de dançar por um bom tempo. Via o quanto se divertia e como movimentava a cabeça movimentando seus cabelos de um lado para o outro. Parecia que era de propósito que se movimentava de olhos fechados, sem ligar para nenhuma das pessoas ao redor. Cansado de admirar tanta beleza, resolvi sair do dance e fui comprar algo para beber no bar esterno. Não querendo vê-lo, resolvi ir ao fumódromo, que fica na parte alta da boate, lá encontram-se poltronas, bancos de madeira e muita gente fumando, claro. Encontrei algumas pessoas que conheci em uma festa na casa de uma das meninas do trabalho e fiquei um bom tempo ali, conversando até o momento em que o vejo, sentado em um banco de madeira, me olhando descartadamente sem se quer disfarçar quando percebe que o vi. Fiquei nervoso na mesma hora. Virei o olhar e continuei olhando para o pessoal, que já estavam completamente embriagados e eu tonto apenas em saber que ele estava me olhando. Não tive coragem de olhar novamente,fiquei tão nervoso que não sabia se ia embora dali ou ficava parado fingido que nada estava acontecendo. Enquanto pensava no que fazer senti aquela mão forte em minha cintura e uma voz grave ao pé do meu ouvido por traz falar:
- Boa noite.
Na mesma hora minhas orelhas queimaram e minhas pernas ficaram bambas. Não tinha outra escolha a não ser me virar.
Me deparei naquela situação, olhando para o cara que passei a noite admirando me olhando e sorrindo para mim com o sorriso mais desconsertante que havia visto em toda minha vida. Minha única reação foi falar:
- Boa.
Sorri e olhei para o chão na mesma hora de tamanho constrangimento. Notando meu desconforto, ele puxou assunto:
- Percebi que você não voltou mais para o dance e resolvi te procurar.
Não soube o que dizer. Ele já tinha me visto e eu nem notei. Será que ele percebeu que fiquei o admirando por mais de uma hora? Não me deixando falar ele continuou:
- Reparei que você me olhou por um bom tempo. Daí fiquei curioso para saber por que me olhava tanto.
Acho que ele falou isso apenas com o intuito de me constranger ainda mais e não deixando por menos respondi:
- Não estava te olhando, foi impressão sua.
E ficamos nos olhando com ar de ironia por alguns instantes até que uma amiga dele aparece do nada já o agarrando pelos braços e falando:
- Até que enfim te encontrei, Felipe. Onde você estava que não te encontrei em lugar nenhum?
Ele responde sorrindo:
- Estava o tempo todo aqui. A propósito, Amanda, este é o...
- Gustavo.
Respondi antes que a deixasse entender que não sabíamos um o nome do outro.
Ela me olhou e falou no ouvido dele tão alto que ouvi:
- Ele é uma gracinha, se você não pegar eu mesma pego.
Ele percebeu que ouvi, mas fingiu que não e falou:
- Pode ficar tranquila que hoje, não te darei esta oportunidade.
Mais uma vez fiquei sem saber nem para onde olhar. Então a Amanda dá um selinho no Felipe, me beija o rosto e se despede, nos deixando a sós.
Não perdendo tempo ele chega próximo de mim mais uma vez me segurando pela cintura, me pergunta ao pé do ouvido se não quero sair daquele ambiente. Fomos para fora da boate e encostado num carro, ele acende um cigarro e vira o rosto inclinando para cima para liberar a fumaça. Fiquei o observando e esperando ele falar alguma coisa, mas não foi isso que aconteceu. Mais uma vez me segurou pela cintura, o que já estava se tornando uma mania, me puxa em sua direção e antes de me beijar ele diz:
- Vem cá que agora quero saber se valeu a pena desejar esta sua boca a noite toda.

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