sexta-feira, 11 de outubro de 2013

2 - Rosa - Efeito do Álcool.

E da escuridão vem surgindo um som. Sem identificar ao certo do que se trata, o ignoro. Meu desejo é apenas continuar ali, parado sem se quer ter a consciência de onde estou. O chato é que este som é familiar e está aumentando a cada instante. Para e volta aos poucos aumentando novamente. Lentamente vou voltando a mim e abro os olhos assustado.
- Meu celular!
Penso com os olhos abertos e tentando identificar onde estou.
Quando me viro, o vejo deitado ao meu lado. Felipe era ainda mais bonito na claridade da manhã. Seus olhos ainda mais claros como mel e seus cabelos ainda mais escuros. Ele estava aparentemente sem roupa, coberto até a cintura, onde me revelava seu abdômen e peitoral definido, apesar de ser magro. Ele estava com a cabeça apoiada no mão, que se apoiava no travesseiro. Sorrindo para mim ele falou:
- Boa tarde, querubim.
Ainda assustado com a situação e sem entender nada, coloco as mãos no rosto e falo:
- Nossa! Me diz que não estou na sua casa.
- Uai, está sim... Vai me dizer que não lembro o que aconteceu na noite passada?

- Acho melhor nem perguntar...
Ele sorri e diz:

- Relaxa que você não fez nada demais, mas acho melhor você atender seu celular, porque seu namorado não para de ligar e isso já faz umas 4 horas.
Namorado? Percebi o ar de ironia em sua voz, mas preferi ignorar e olhar quem estava me ligando. Procurei meu telefone e olhei quem era. Sabia que era ele:
-Alô? Atendi com uma voz tão cansada que ele do outro lado da linha percebeu.
- Guh? Até que enfim você atendeu. Pensei que tivesse morrido. Onde você está? Pelo visto a noite foi boa, em? Volta ainda hoje?
Mal conseguia processar o que ele estava falando. Apenas ouvi tudo o que ele disse e respondi:
- Niel, relaxa que estou bem, quando chegar em casa te conto o que aconteceu quando descobrir. Beijão.
E desliguei o telefone enquanto ele ainda gritava do outro lado querendo saber alguma informação mais cabeluda.
Daniel é assim, completamente obcecado por sexo. Pensa nisso vinte a quatro horas por dia. Possui vários perfis no Facebook e contas "fake" para se exibir na internet. Basicamente foi por este motivo que ele resolveu sair da casa dos pais e morar comigo. Já conhecia o Daniel da internet antes mesmo de vir para Uberlândia, e confesso que foi por causa dele que resolvi vir. Como o conhecia apenas na net, só tinha conhecimento sobre seu lado promíscuo. E põe promiscuidade nisso. Apesar de seus 18 anos, ele possui uma gama de obscenidade que me assusta as vezes. Mas o Niel não é só isso. Ele como pessoa é um rapaz extremamente compromissado com seus estudos e focado em construir uma carreira. Estuda administração na UFU e geralmente está estudando ao mesmo tempo que se exibe na "cam" para os tarados de plantão. Não me perguntem como, mas ele consegue. Não vou negar que no começo tinha uma certa queda por ele e imaginava nós dois fazendo muita coisa feia entre quatro paredes, mas sabe quando a pessoa nasce para ser sua amiga? Pois é. Com ele foi deste jeito. Amizade a primeira vista.
Voltei minha atenção para o Felipe e constrangido, não consegui conter o sorriso. Sorriso este que imediatamente foi correspondido.
-Então, vamos almoçar e conversar um pouco? Aproveito e te conto o que ocorreu na noite passada para te despreocupar de uma vez.
Ele sabia que eu não lembrava de nada, nem como fui parar na casa dele.
Levantamos juntos da cama e meu alívio foi instantâneo quando reparei que ele estava de short e eu completamente vestido. Primeiro fui ao banheiro molhar o rosto, quando entrei tinha uma toalha dobrada, uma bermuda e uma camiseta regata com cheiro de amaciante me esperando. Ele se encosta na porta do banheiro e fala:
- Não pense que sou organizado assim. Preparei isso exclusivamente para você.
Não sei se sou eu que tinha perdido a fé no romantismo ou ele é que colocava muita fé nele. Só sei que a cada situação me surpreendia mais e até temia com o que pode ter acontecido.
Tomei uma banho tão demorado que parecia que estava em casa. Só me toquei quando depois de um bom tempo ele bate na porta perguntando se estou bem. Respondo que sim e desligo o chuveiro na mesma hora. Me visto com a roupa que estava no banheiro e sai todo sem graça.
-Pelo visto nosso biotipo é igual, já que minha roupa ficou tão bem em você que parece mais sua do que minha.
- Ah, cala a boca. Você só está falando isso para amenizar um pouco de meu constrangimento.
Então ele se levanta do sofá e vem ao meu encontro. Me abraça segurando mais uma vez cintura e diz após me dar um selo na boca:
- Não estou falando nada além da realidade. Todas as verdades que te disse até então são apenas o reflexo do seu jeito angelical de ser.
Tenho certeza que meus olhos brilharam neste momento e o abracei para fugir de seu olhar encantador. 
Em seguida nos sentamos e ele mesmo serviu a nós dois.
Meu prato tinha tão pouca comida quanto o dele, mas não quis que soubesse que como muito mais do que aparento, para não estragar o momento. Almoçamos e depois fomos para sala, deitamos no sofá e ele começou?
- Sério que você não lembra de nada que aconteceu ontem?
- Só lembro de alguns fleches, mas com perfeição, só até o momento em que nos beijamos na entrada da boate.
- Então vou te contar a partir daí. 
A cada palavra que ele dizia eu ficava ainda mais perplexo com o que fiz.
- Então você começou a beber sem parar, misturava tudo o que via pela frente. Confesso que fiquei preocupado e pedi para você ir com calma em vários momentos, mas você parecia tão bem, que não quis ser o chato da situação. Seus amigos ficaram conosco por um bom tempo, mas como você não parava em um lugar só, constantemente nos perdíamos de todos, dos meus e dos seus amigos. Por volta das quatro da madrugada você começou a passar mau. Vomitou e resolvi te colocar num táxi para te levar em casa. O problema é que você achava que estava em Natal, no Rio Grande do Norte e falava um endereço que aqui em Uberlândia nem existe. Inclusive até agora quero saber o que é "Nova Parnamirim". (Risos) Como não tive outra escolha, te trouxe aqui para casa e o que mais me encantou foi te ouvir falar no táxi que eu poderia entrar para dormir com você na sua casa, mas que por favor, não tentasse fazer nada com você, porque você era de família e que eu precisava conhecer sua "Mainha" primeiro. O Taxista riu quando você disse isso e eu só sabia segurar sua cabeça e dizer que estava tudo bem.
Chegando aqui em casa, você simplesmente foi direto para o quarto, o que não sei como você sabia onde era, já que foi direto para lá e apagou na cama. Ainda tentei te animar oferecendo um copo com água, perguntei se queria tomar banho, mas nada. Então resolvi te deixar em paz, comi alguma coisa, tomei banho e fui dormir com você.
Ouvi todo calado sem saber o que fazer ou falar. Apenas pedi desculpas e ele só sabia sorrir.Foi então que ele falou a grande revelação:
-Assim que me deitei, te abracei e beijei seu rosto. Você se virou para mim, disse que sou perfeito para você em tudo e me pediu em namoro. 
Na mesma hora me veio um frio na barriga e comecei a entender o motivo de tantos mimos. Ironizando a situação e demonstrando não ter lavado a sério eu disse sorrindo:
- Até imagino sua reação com esta conversa de bêbado.
E ele apenas me responde:
- Relaxa, eu aceitei.

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